Não, ela não é uma cidade pacata, nem é cheia de belezas naturais e nem um exemplo de organização urbana. Mas eu gosto dela. Gosto de poder me perder por ela, de andar com os olhos marejados por ter perdido uma coisa boba que eu amo e ninguém me parar perguntando quem morreu. Posso ser mais um e chorar minhas bobagens ou minhas grandes dores sem que me façam perguntas. E também me deparar com a delicadeza de desconhecidos que me fazem acreditar um pouco mais no gênero humano.
E qualquer cidade onde a gente tem um amigo, um amor, nunca é apenas uma urbe. Imagine nessa onde está a maior parte deles.
“Quando eu morrer quero ficar
Quando eu morrer quero ficar,
Não contem aos meus inimigos,
Sepultado em minha cidade,
Saudade.
Meus pés enterrem na rua Aurora,
No Paissandu deixem meu sexo,
Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam.
No Pátio do Colégio afundem
O meu coração paulistano:
Um coração vivo e um defunto
Bem juntos.
Escondam no Correio o ouvido
Direito, o esquerdo nos Telégrafos,
Quero saber da vida alheia,
Sereia.
O nariz guardem nos rosais,
A língua no alto do Ipiranga
Para cantar a liberdade.
Saudade...
Os olhos lá no Jaraguá
Assistirão ao que há de vir,
O joelho na Universidade,
Saudade...
As mãos atirem por aí,
Que desvivam como viveram,
As tripas atirem pro Diabo,
Que o espírito será de Deus.
Adeus.”
Mário de Andrade
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