segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Auto-descrição

O corpo é jovem, razoavelmente magro e feminino. A cabeça na palma da mão, encoberta por cabelos cacheados que chegam até o ombro, com pescoço pendendo para o lado quando tenta achar a solução para um problema. Sobrancelhas arqueadas para lembrar que há uma dose de pavor no mundo. O olhar é grande e míope, envidraçado. Um olhar que não viu tudo, mas que desejaria apagar algumas cenas, assim como os ouvidos queriam ser surdos a alguns sons.
A boca se acostumou a fazer um risinho de canto sem esforço. A língua ficou sedenta por bebidas amargas, frases ácidas. Os dedos agora não apontam pessoas e coisas, mas tamborilam inutilmente sobre mesas. As mãos aprenderam a abafar o riso, a esconder o rosto quando esse resolve ficar choroso, a fazer carícias.
Os ombros estreitos algumas vezes parecem querem ser unir ainda mais, retraindo-se. É porque algumas vezes eles sentem carregar o peso do mundo, ou pelo menos o peso de decidir sobre muitas coisas, decidir sobre o peso que outros ombros vão carregar.
A pele perdeu um pouquinho de cor ao se enfiar em salas refrigeradas, bares e inferninhos, ver pouca rua. Adquiriu algumas manchas. Os joelhos não têm mais arranhões, que agora são em lugares invisíveis. O pulmão perdeu fôlego nos cigarros alheios, na vida sedentária, em todas as fumaças da maravilhosa vida urbana.
Além do pulmão o peito carrega um leve decote, alegrias e dores. Alegrias e dores que se fundem e permitem ao pulmão se encher e esvaziar. Encher e esvaziar.


Sim, isso era um exercício valendo nota. Pelo menos foi divertido.

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